Tarot Africano: Uma Jornada Espiritual Ancestral além dos Arcanos
Enquanto o tarot tradicional, com seus arcanos maiores e menores, tem suas raízes na Europa Medieval e no Renascimento, uma corrente poderosa e fascinante de guidance espiritual vem ganhando espaço no Brasil: o Tarot Africano. Mais do que um simples oráculo, ele representa uma ponte com as filosofias, divindades e a sabedoria ancestral do continente africano, ressoando profundamente com a rica herança cultural e religiosa brasileira.
Não é Apenas um “Tarot”: Uma Visão Baseada na Natureza e na Comunidade
Diferente do tarot clássico, estruturado em 78 cartas, o chamado Tarot Africano muitas vezes se utiliza de outros sistemas de consulta. Ele pode incorporar:
- Opele-Ifá (Jogo de Búzios): O sistema divinatório mais tradicional e complexo das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Através do lançamento de 16 búzios e uma tábua sagrada (Opon-Ifá), o Babalorixá ou Iyalorixá interpreta os odus (caminhos/destinos) para oferecer orientação.
- Cartas com Simbologia Africana: Baralhos contemporâneos criados por artistas e estudiosos que substituem figuras como a Imperatriz ou o Hierofante por orixás, inkices e voduns. Por exemplo, a energia de Oxum pode trazer mensagens sobre amor, beleza e prosperidade, enquanto Xangô fala sobre justiça, decisões e autoridade.
- Objetos da Natureza (Ngó): A leitura pode ser feita com elementos como sementes, conchas, pedras e ossinhos, onde a disposição natural desses itens revela os caminhos.
O foco principal não está na previsão de um futuro imutável, mas no aconselhamento. A consulta busca identificar desafios, apontar forças e fraquezas, mostrar quais energias (dos ancestrais ou dos orixás) estão atuando na vida da pessoa e, principalmente, indicar caminhos para o equilíbrio e a realização pessoal dentro da sua comunidade e do seu destino (orí).
Os Orixás como Guias: A Linguagem dos Arquétipos Divinos
No coração desta prática estão os Orixás. Eles são muito mais do que “deuses”; são forças da natureza, arquétipos humanos universais e ancestrais divinizados. Cada um traz uma lição, um domínio e um desafio. Uma consulta de Tarot Africano, portanto, é um diálogo com estas energias:
- Iansã (Oyá): Fala de transformação brusca, coragem, ventos de mudança.
- Ogum: Rege os caminhos, o trabalho, a tecnologia e a superação de obstáculos.
- Nanã Buruquê: Conecta à ancestralidade, sabedoria, respeito aos mais velhos e ao ciclo vida-morte-vida.
- Oxóssi: Guia na busca por conhecimento, foco, e na conexão com a floresta e os animais.
Por que o Tarot Africano Responde tão Forte no Brasil?
A conexão é espiritual e histórica. O Brasil é um dos maiores países afrodescendentes do mundo fora da África. A cultura, a religiosidade e a visão de mundo dos povos trazidos durante o período colonial estão entranhadas na nossa identidade. Buscar orientação no Tarot Africano é, para muitos, uma forma de resgate. É uma maneira de se conectar com raízes que foram historicamente silenciadas, encontrando respostas em uma cosmovisão que valoriza o coletivo, o respeito aos mais velhos (eguns) e a harmonia com a natureza.
Respeito e Cuidado: Como Aproximar-se Desta Prática
É crucial abordar o Tarot Africano, especialmente quando ligado às religiões de matriz africana, com o máximo de respeito e seriedade. Não se trata de um modismo ou um item decorativo.
- Entenda a Profundidade: Reconheça que é parte de um sistema religioso e filosófico complexo, com séculos de história.
- Busque Praticantes Sérios: Pesquise por leitores ou sacerdotes (Babalorixás, Iyalorixás, Babaloshas, Ialorixás) com boa reputação e formação, que priorizem o aconselhamento ético.
- Evite a Apropriação Cultural: Interesse-se pela cultura, história e significados por trás dos símbolos, sem banalizá-los ou usá-los fora de contexto.
Conclusão: Um Convite ao Autoconhecimento Ancestral
O Tarot Africano oferece um caminho único de autoconhecimento. Ele convida o consulente a olhar para sua vida através das lentes da natureza, da comunidade e da sabedoria dos ancestrais. No Brasil, essa prática se reveste de uma potência especial, sendo um instrumento de cura, empoderamento e reconexão com uma identidade profunda. Mais do que revelar o futuro, ele ilumina o presente, lembrando-nos de que carregamos em nosso orí (cabeça, destino) a força de um povo resiliente e a sabedoria de toda uma linhagem.
Que os seus olhos se abram para os caminhos (odus) que os ancestrais têm a mostrar, e que Exu abra seus passos, enquanto Oxum embala seu coração com sabedoria. Axé!
Observação: Este artigo foi criado com finalidade informativa e cultural. Para uma prática religiosa ou consulta profunda, recomenda-se sempre buscar os templos e representantes autorizados das religiões de matriz africana.











